domingo, 30 de março de 2008

Je suis

(texto da Lia em 29/03/2008)

Explicando o título do post: existe uma música da Brigitte Bardot intitulada 'Je danse, donc je suis'.

'Eu danço, então eu sou'? Ou 'Eu danço, então eu sigo'? Trocadilhozinho bacana, esse.

Pois bem: estou começando na dança de salão. Verdade que com uma dedicação pouco vista por aí, mas estou começando ainda. Meu repertório de passos é bem limitado, e ainda me falta aquela coisa de corpo, de saber fazer bom uso dos quadris, da perna esticada no bolero, de fazer o que faço, mas com a postura adequada à modalidade. Ainda tenho muito o que aprender - e, como quero aprender, nada melhor do que sair pra dançar, e não me contentar apenas com as aulas. A gente vicia em dançar com nossos colegas de turma e professores e, na pista, na hora de dançar com um cavalheiro de outra escola, outra formação e outro background, não rola um entrosamento.

Quando você está começando, é difícil mesmo conciliar passos com entender a música, com entender o que o cavalheiro te diz, com manter o tempo, com se manter no tempo do cavalheiro, e ainda tem que lembrar de postura e... ora, dama. Chute o balde. Dance para se divertir.

Malandra que sou, saí pra dançar com um amigo que conheço há quase vinte anos. Se ainda tenho dificuldades pra me entrosar com os cavalheiros por aí, com esse a dança fluiu tão bem quanto o papo, que se estendeu até altas horas da madrugada, mais pela intimidade que já existia do que pela minha dança espetacular, haha. Obviamente, o fato do amigo ter mais de vinte anos de dança a dois dentro de apenas trinta e um de idade, e da escola dele ter sido a pista de dança, e não uma ou outra academia que ensina uma ou outra técnica (e da minha escola de teoria musical ter sido a mesma que a dele!), tudo isso ajuda. Mas ele podia ser um desses dançarinos excelentes que só dançam com gente do mesmo nível, pra poder se exibir. Podia ficar entediado por não conseguir fazer comigo metade do que faria com alguém mais experiente. Mas ele também só queria se divertir. Ponto pra gente.

A noite valeu por umas dez aulas de dança - até porque, a cada nova música, a cada novo par, você aprende alguma coisa: é outro corpo, é outro estilo, é outro tempo. Você tem uns três minutos e meio - tempo de uma música - para entender como é a dinâmica daquela pessoa e, quem sabe, se entrosar. Faz parte da cultura do salão você dançar com várias pessoas - mas nesse dia, e nesse momento do meu aprendizado, foi muito importante acontecer o que aconteceu: passar a noite inteira dançando com uma pessoa só. Houve um entrosamento que eu nunca tinha experimentado - a primeira música foi um desastre, na última eu já estava dançando salsa mesmo com apenas duas aulas de salsa no currículo. E, ainda assim, não lembro de ter feito nada que eu tenha aprendido em aula. Como assim...?

* * *

Coisas que aprendi na última noite, comigo ou observando os outros:

- Se você se preocupa demais, você não se diverte.

- Se você se diverte, você só fica sentada se quiser.

- Cavalheiro bom não é o que dança melhor, mas o que sabe se divertir contigo. Presumindo que você seja uma dama que se diverte, claro.

- Afetação na pista de dança é brega.

- Se exibir na pista de dança é brega.

- Você pode ter sido grunge durante sua fase de formação de caráter (também conhecida como adolescência), pode ter passado quase um dia inteiro num ônibus pra ver sua banda de rock preferida (e mais um dia inteiro de volta), pode ter até uma tatuagem dessa banda. Ainda ontem você cantou todas as músicas do Matanza e vibrou com os Autoramas tocando 'Seek and Destroy'. Ainda assim, admita: dançar forró é bom demais, dançar forró com um par que pode ser classificado como 'o maior gostoso' é melhor ainda.

- Já tinha ouvido falar, mas pude comprovar: salsa e swing americano são parentes. MESMO. Parentes distantes criados em países diferentes, mas parentes.

- Não sei exatamente o que fiz, mas o fato é que fiz, mesmo com apenas duas aulas de salsa na vida. Enquanto ele (profissional da área) parece saber muito bem o que me fez fazer, eu só consigo conjecturar: tenho quase certeza de que, enfim, me entreguei e segui. E aí, filha, quando você quer, você fala até japonês.

- Óbvio que conduzir e seguir não é uma relação engessada. Dança não é apenas um que guia e outro que se deixa levar: é uma troca, é a dois. É pergunta e resposta o tempo inteiro. E mesmo que você não saiba a resposta correta, o que você não pode fazer jamais é não responder.

- Aí você perde o tempo, troca o passo, tropeça no próprio pé e teu par está lá, se divertindo tentando te acompanhar (nota: o guia é ele. ele está tentando acompanhar tua falta de jeito), do mesmo jeito que você está se divertindo tentando acompanhar um dos melhores dançarinos da cidade. E essa é a graça.

- As pessoas estão olhando, mas você não faz questão de fazer bonito pra elas, e sim de fazer gostoso com quem está na tua frente, te dando a maior atenção.

* * *

Tudo isso parece óbvio demais, ou pode parecer que não é nada demais, mas é curioso sentir essa mudança de estágio, conseguir perceber coisas que até então eram imperceptíveis - e o que rolou depois de bônus foram horas e horas de análise, dicas e conversas para ajudar a esclarecer pontos e fortalecer (ou quebrar) algumas posições e relações que tenho com dança.

Ficou a lição - que eu já sabia! - não apenas da importância da prática, como da importância de transformar toda e qualquer situação de dança numa oportunidade de aprendizado.

E o aprendizado, esse fanfarrão, com ou sem dança envolvida, é muito mais eficaz quando a gente se diverte ao mesmo tempo. E taí uma das melhores coisas da dança de salão...

domingo, 23 de março de 2008

Mais sobre musicalidade e ritmo

Quando eu disse que cavalheiros deviam fazer essa aula também, falei sério.

Dançar sem música é possível, mas no salão... entender o que a música quer te dizer é fundamental. E não é apenas entender o que diz a letra, mas o andamento, as variações de voz ou de arranjos, ora mais suaves, ora mais fortes... às vezes numa mesma música! E as pessoas lá, dançando como se essas variações não existissem, apenas reproduzindo os passos que aprenderam na academia.

Entendo que as motivações para se aprender dança - e, principalmente, a dança de salão, que além de tudo te possibilita uma vida social - são várias. A minha, por exemplo, foi a paixão por um certo gênero musical. Escrevo sobre música numa revista razoavelmente importante, aprendi a tocar instrumentos e a usar minha própria voz como instrumento, aprendi a dançar tocando, tive aula de música na escola... mas ninguém precisa disso tudo. Basta saber curtir o som que vem das caixas, respondendo com o corpo ao que a música tenta nos dizer. Uma batida marcada pede um pé batendo, uma melodia sinuosa pede uma ondulação do corpo... quer um bom exercício? Ouvir, curtindo e tentando responder, a Rhapsody in Blue de George Gershwin. Não é exatamente uma música fácil para dançar, mas é uma música divertida para entender música (e, na minha modesta opinião, a música mais bonita do universo).

Aqui, a Parte 1 (para ouvir on-line ou para baixar).
Aqui, a Parte 1 (para ouvir on-line ou para baixar).

Pra ficar mais interessante ainda, segue a versão em desenho animado, do filme 'Fantasia 2000', da Disney:

Parte 1:


Parte 2:


Na aula, aprendemos a contar até oito e a encaixar os passos (ou acordes!) nessa contagem - o que geralmente funciona. Mas a dança fica muito mais divertida quando a gente responde às nuances da música, às paradinhas, ao andamento (gente, créu não, tá?) ali mesmo, na pista - a música te informa e você devolve, no ato, essa informação - podendo até voltar para o 'oito' básico, se a música pedir.

E pra que dançar se não é pra se divertir, né não?

A má notícia é que você pode até aprender a entender a música, mas sem amor à arte, sem ter momentos de intimidade - você e a música, sozinhos, no quarto, no banho, na hora da faxina rodopiando com a vassoura pela sala, cantando junto e feliz a plenos pulmões ou chorando baixinho por causa de uma melodia ou letra que te tocou lá no fundo - não tem jeito.

Saber fazer passos, conduzir bem (ou se deixar conduzir), isso tudo também é fundamental, mas saber interagir com a música é meio caminho andado e ter tesão no que você está fazendo é a outra metade do caminho (já viu dançarino burocrático por aí? tem aos montes!!).

O resto é técnica, e técnica se aprende, sim. Mas paixão... aí vem do coração de cada um. A sua paixão está aonde?

A minha está saindo da caixa de som AGORA.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Mais fotos da edição 2007 do workshop




Esse foi o Workshop da Soraya Jorge. Pra essa edição de 2008, olha o que você pode esperar:

Nessa aula teremos a oportunidade de entrar em contato com os aspectos do corpo facilitadores para a dança de salão:
- o alinhamento ósseo;
- os espaços articulares;
- a distribuição de peso;
para se conquistar um melhor equilíbrio, postura e fluxo de movimento.

A alegria do gesto através do contato com a fonte de sua própria dança.


* * *
Gente, isso é MUITO importante. O que mais tem aí (e eu, Lia, me incluo nisso, mas estou me esforçando pra 'curar') é gente que aprende os passos mas tem apenas uma vaga noção de como o próprio corpo funciona...

* * *
Update: mais sobre o trabalho da Soraya aqui. Não poderia ter melhor instrutora para o workshop de Técnicas corporais, né não?

quarta-feira, 12 de março de 2008

Dia internacional da mulher - Mullheres no salão

Às vésperas do dia internacional da mulher ponho-me a analisar a posição que a mulher contemporânea ocupa no universo da dança de salão.



Mulheres no salão


Dama, dançarina, partiner, professora, aluna ─ MULHER ─ Com seus desejos, sua timidez, seus objetivos profissionais, seus medos, seus segredos...Sentimentos vários.Todas vivendo o mesmo conflito de qualquer mulher contemporânea!
O que queremos conquistar? O que já conquistamos? O que perdemos com a nossa conquista? Quantas perguntas...
Às vezes me parece que estamos meio perdidas – ou perdidos – porque os homens também estão tentando se adaptar à esta NOVA MULHER! É assim lá fora e é assim no salão!
Como é difícil ser cada uma na hora certa. Ser dama quando ele quer ser cavalheiro: deixar-se conduzir...Entregar-se...E de repente, quando nos condicionamos a sermos “levadas”, percebemos que eles estão exigindo mais de nós! Então não basta deixar-se levar. Temos que conhecer o caminho e nesse caminho, mostrar nossas habilidades de dançarina: com nossos enfeites, floreios, adornos, seja o nome que quiserem chamar!

Sim, esse é o novo modelo da mulher do salão moderna!

O que conquistamos?!! A nossa identidade! O direito de mostrar o que sabemos e não somente acompanhar o cavalheiro. Os homens não querem mais ser responsáveis por tudo, querem também dividir a dança com a mulher. É uma parceria - UMA TROCA. Ele assume o comando, diz qual o caminho, nós o acompanhamos e o surpreendemos com algum adorno. De vez em quando induzimos algo, sem perder a idéia de que o comando é dele!
Isso é bom! É o jogo ─ um espera algo do outro. A dança fica interessante!

Hoje nosso espaço é diferente. Convidamos o cavalheiro para dançar, dançamos de cavalheiro com outra mulher, podemos pagar um “personal dancing”, estar à frente de uma turma, administrar uma academia.

É claro que ainda precisamos romper com preconceitos, provar nossa competência profissional, nosso valor como partiner...Precisamos ainda lembrar que temos NOME!

Mas com tudo isso, no fundo, queremos nos sentir MULHER!

Colocar uma roupa escolhida com cuidado, sapato especial, o cabelo, a maquiagem, o perfume...Tudo preparado para o momento do salão...E aí termos a certeza, de que, ao sentarmos à mesa, em algum momento, um cavalheiro virá em nossa direção e gentilmente nos convidará para dançar.

Adriana Aguiar